Meu arco, minha vida

Artigo publicado no Jornal O Popular - Dez/2008

Meu arco, minha vida

“Nós, os mestres-arqueiros, dizemos:

um tiro, uma vida! Talvez lhe seja difícil

compreender isso...”

(Kenzo Awa, mestre japonês)

Com o passar do tempo e o aprendizado da vida, compreendi que existem dias que eu pratico arco e flecha e existem os dias que eu não pratico arco e flecha. Aprendi que aqueles são bem melhores do que esses. Aprendi que a ação de atirar uma flecha está revestida de tanta complexidade, que na sua simplicidade ela traduz a beleza do ato.

Arco e flecha é uma dessas coisas apaixonantes e capazes de dar sentido a uma vida. Nele está envolvido História, Antropologia, Esporte, Psicologia, Metereologia, Física e, principalmente, sentimento. Vontade de superação e melhora na interminável busca do tiro perfeito e que, por vezes, até acontece e o desafio passa a ser repeti-lo.

Nessa dinâmica inesgotável de possibilidades assenta-se o amor a essa arte que alguns chamam de esporte. Talvez sua melhor definição seja uma filosofia de vida. O arqueiro é um ser diferenciado, sensível, concentrado e disposto a enfrentar desafios. Grande é o arqueiro que atira não uma flecha, mas “a” flecha. Não precisa ter o melhor resultado no alvo, basta você ter feito o seu melhor. O resultado virá com treino, persistência e dedicação, aliado a um preparo psicológico que o arqueiro busca aprimorar.

Fonte de inspiração de deuses, mitos, heróis e guerreiros, o arco ao lançar cada flecha, lança também uma infinitude de sonhos rumo a um alvo, um objetivo. Como diz o autor do livro A arte cavalheiresca do arqueiro zen, Eugen Herrigel - no tiro com arco, arqueiro e alvo deixam de ser entidades opostas, mas uma única e mesma realidade. Diante disso, encontrar a sintonia perfeita entre os vários fatores que envolvem o disparo de uma flecha é uma meta que a humanidade busca a alguns milhares de anos. Ainda não conseguiram chegar a perfeição, talvez nisso esteja a beleza e a paixão que o arco desperta.

Conversando com o mestre Renato Emílio - maior arqueiro brasileiro de todos os tempos, 21 vezes campeão brasileiro e representante brasileiro em quatro olimpíadas - tive um grande ensinamento. Disse a ele que a beleza do tiro com arco era enxergar no alvo o estado de espírito que se encontra no dia. Flechas agrupadas, um dia prazeroso, equilibrado e promissor. Flechas espalhadas refletem que não me encontro bem. Parei por aí. Renatinho me ensinou que, mais do que o reflexo do meu estado, as flechas no alvo servem como fator modificador, se necessário, desse estado. Não podia eu me contentar em ver que as flechas estavam espalhadas e traduzir isso como um dia ruim. Ao contrário, ver o mau resultado no alvo é o estímulo necessário para querer transformar isso em bons tiros, em um dia melhor. Obrigado, grande mestre!

Por isso disse que existem os dias que eu pratico arco e flecha. Essa arte é o termômetro preciso para medir as possibilidades de uma vida. Arco, muito mais do que um instrumento de arremesso de um objeto para um alvo. Arco, meio e fim de um estilo de vida.

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